São as narrativas que andam a lixar isto tudo. As duas escondem a
verdade e a realidade dos factos. É no confronto das narrativas que se constrói a política e se engana o povinho!
Este
processo de construção de narrativas, usadas para pelejar na arena
política, em que ambos os lados beneficiam do facto de as narrativas
permitirem omitir e tapar a realidade das coisas, e de utilização das
mesmas para propagar no tempo esta camada de realidade ilusória, muito
bem aceite e solicitamente servida a preceito pelos órgãos de
comunicação social do "establishment", contribuiu e contribui para o
status quo da nossa vida política, democrática e governamental/estatal,
a saber, a ilusão é tanta, as narrativas são tão bem adoptadas por
outros para além dos políticos partidários, também actores
principais e com responsabilidades mais práticas, como os governantes,
os deputados, os directores gerais, os directores das empresas do estado,
os autarcas, os políticos e os governantes regionais, e mais grave, até
pelos agentes judiciais, desde o MP, advogados e até juízes, de tal
forma que nunca ninguém tem culpas, a não responsabilização grassa em
todos os níveis e sectores, nunca se sabe ao certo quem fez o quê, aonde
e quando, e andam todos enredados há anos nisto, que é o perfeito
ambiente para a impunidade se instalar e os dolosos, os incompetentes e
os corruptos se esconderem!
Se queremos salvar a democracia e
também a nobreza da política, temos de avançar numa luta sem quartel
contra as narrativas, descodificando esta realidade virtual que elas
construíram e constroem, afastando e descredibilizando, tornando
ineficazes, os pagagaios das narrativas, perseguindo um labor de
investigador e de arqueólogo, para penetrar na camada por debaixo,
abaixo dos filtros criados pelas narrativas, reunindo os factos e os
números para os ligar e associar por relações agora reais de causa e
efeito, reconstruindo a realidade.
Só assim será possível sair
deste estado de hipnose colectiva, um estado que é receptivo e se
alimenta de pseudo factos como os conteúdos da entrevista ao ex 1º
ministro, porque a entrevista e o que se lhe seguirá, o comentário político,
eles mesmos, em conjunto com os outros comentadores políticos, são fonte
e matéria de que se tece a realidade ilusória e virtual.
Nota:
uso e abuso da palavra narrativa, neste publicação, não por contágio da
entrevista de Sócrates, mas por inspiração da análise de José
Pacheco Pereira, ontem, 5ªf, no programa Quadratura do Círculo!